sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

PERDOAR, EIS A QUESTÃO

Voce consegue perdoar?  Perdão entre os homens, esforço muitas vezes sobre-humano, tarefa tão complexa que dizemos, em fuga, que “perdoar é divino”, como se a nós só nos restasse o errar, tão humano.
Ah, como é difícil... perdoar e se libertar.
Perdão e ressentimento andam juntos como a cicatriz e a memória da dor.
Não há perdão enquanto estamos ocupados polindo os monumentos que erguemos à mágoa. Não há saída enquanto revemos sem cessar o filme de uma história triste seja ela de deslealdade, traição, injustiça. Não há descanso enquanto nos vemos como vítimas do ressentimento e protagonistas da dor. Não há trégua enquanto desperdiçamos tempo e mundo, enquanto fazemos de um episódio pesado o acontecimento mais importante da nossa vida, enquanto mantemos os holofotes sobre a velha cena. Não há sanidade enquanto nos alimentamos de amargura e bílis, enquanto engendramos vinganças e tumores, enquanto cuidamos das feridas com zelo para que não cicatrizem..
Ah, como é difícil... pois é preciso querer sair da rede.
Entender como é inútil sentir raiva, desejar o mal, torcer contra e invocar a ira divina. Como é simplista se apegar ao “aqui se faz, aqui se paga”. Como é inócuo recontar a mesma história pela milésima vez e tentar convencer ao maior número de pessoas da legitimidade dos seus motivos. Como é ingênuo pensar que de alguma forma o não perdoar atinja quem nos feriu. Como é absurdo pensar que dispomos de algum condão capaz de transformar a vida alheia com nossa falta de perdão. Como é fundamental perceber que o não perdão nos mantêm presos àqueles que nos magoaram: somos nós quem ficamos com as pernas amarradas, ninguém mais.
Haja coragem! É como trocar de pele, faxinar a alma e jogar fora o entulho. É abrir espaço emocional e inventar um novo tempo. É retomar a escrita do livro da vida sem a co-autoria do ressentimento.
Não é simples como desculpar. Isso fazemos a toda hora para melhor viver. Você se des-culpa e des-culpa o outro por palavras levianas, atrasos, pequenos prejuízos ou grosserias. É um acerto entre as partes e precisa ser explicitado. Perdoar é diferente; o perdão começa nas entranhas e não precisa ser proferido, declarado. Coisa de foro íntimo e uso interno. Unilateral.
Perdoar é se desvencilhar do passado, da perpetuação da traição, da contabilidade dos danos. Não é assunto dos deuses, tem a ver com sabedoria. O perdão liberta o ferido, só isso. Não é um gesto para o outro. Não salva ninguém. É uma conquista pessoal que só beneficia a quem perdoa.
Perdoamos quando concedemos indulto às penas, quase perpétuas, impostas a nós mesmos. Quando revogamos as sentenças injustas, que nos ancoram às nossas tragédias pessoais.
Perdoamos quando deixamos de querer entender os porquês, por que nem tudo tem lógica ou explicação. Quando paramos de nos torturar com o que poderíamos ter dito ou não dito, feito ou não feito, para evitar o curso dos acontecimentos.
“Perdão é quando amor e justiça se encontram.”, disse Michael Cimino.
É quando nos amamos o suficiente para nos libertarmos do círculo infernal do re-sentir e das dores com validade vencida; é quando fazemos justiça à nossa história e olhamos o outro, sem o capuz do verdugo, e apenas o vemos.
Perdoar é humano, tão humano quanto sofrer. Deuses absolvem. Homens perdoam. E quando isso acontece sentem-se aliviados e livres.
Perdoar é confeccionar asas para a alma.

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